Clima tropical e hipotermia – dicas de segurança

Neste artigo vamos falar sobre dois fatos aparentemente contraditórios, frio e clima tropical.

Monte Roraima (2734 m), uma típica montanha tropical...

Monte Roraima (2734 m), uma típica montanha tropical…

“O grande desafio climático para os montanhistas tropicais é mesmo a chuva, ou seja, o frio molhado.”

No Brasil são raros os relatos de hipotermia e estamos acostumados a pensar no Brasil como “país tropical”. De fato a maior parte do território está sob o domínio de latitudes quentes (tropical e equatorial), porém temos também pequenas áreas com altitudes mais elevadas e com um clima “tropical de altitude” (Itatiaia, Serra Fina, Serra do Caparaó, etc), onde o risco e hipotermia é bem real.

A condição mais propícia para a ocorrência da hipotermia “tropical” é com temperaturas entre 0ºC e 15ºC (isso mesmo, 15ºC positivos!). Na verdade existem estatísticas que mostram que grande parte dos casos de hipotermia acontecem em contato com a água (chuva, lagos, rios ou mar), em temperaturas acima de zero grau Celcius. Por ser boa condutora de calor, a água colabora com o rápido resfriamento do corpo, conduzindo o calor interno para fora. Já as temperaturas abaixo de zero proporcionam uma queda na umidade do ar, aumentando as possibilidades de isolamento com roupas, etc. e melhorando a sensação térmica.

Quem mora no sudeste do Brasil, em lugares de clima tropical, como São Paulo, BH ou Brasília, já passou pela experiência de ficar encharcado em uma “chuva de verão” e sabe que a sensação de frio é imediata. Mas, nesse caso, corremos pra casa e tomamos um banho quente, opção inexistente nos ambientes remotos de montanha…

Além disso o vento, que é muito mais forte nas montanhas, exerce um papel de “ladrão de calor”, criando uma sensação térmica muito abaixo da temperatura do ar… O “x” da questão é o tempo de exposição ao frio/chuva, que deve ser menor quanto mais críticas forem as condições.

Para evitar a hipotermia em áreas remotas de montanha dependemos basicamente de dois fatores: (a) prevenção e (b) procedimentos:

(a) – Prevenção: é feita com o uso de equipamentos de segurança contra hipotermia que são basicamente:

1 – Roupa impermeável (jaqueta/anoraque/poncho – calça impermeável é bem menos importante, pois 90% do calor vital está da cintura para cima).

2 – Roupas de material adequado para climas frios e úmidos, como lã pura e materiais sintéticos especiais, de secagem mais rápida (nada de abrigo de moleton – algodão, ou calça jeans!).

3 – Barraca impermeável (que muitas vezes será á única forma de se isolar da água, do frio e do vento em situações mais críticas).

A barraca é o seu abrigo de segurança no topo de uma montanha!

A barraca é o seu abrigo de segurança no topo de uma montanha!

Os equipamentos de vestuário servem para continuarmos em progressão com certo conforto e segurança térmica durante um trekking ou escalada, evitando chegar ao estágio de pré-hipotermia.

As roupas específicas de montanha acumulam menos suor, que também pode ser um “gatilho” para o rápido resfriamento do corpo em condições de fadiga e frio.

Outro fator de prevenção é sempre proteger o saco de dormir e as roupas secas dentro da mochila com um saco grosso e forte ou um saco estanque de trekking.

Uma manta térmica também é um excelente equipamento de segurança em termos de custo/benefício, pesando menos de 50g.

(b) – Procedimentos: todo guia de montanha ou a pessoa mais experiente de um grupo deve cuidar para que ninguém chegue ao estado de pré-hipotermia (sintomas: muita fome, tremores e respiração acelerada; o estágio seguinte apresenta apatia, fala confusa, sono e até perda de consciência…).

Em áreas remotas, é mais difícil reverter um quadro de hipotermia à medida em que os sintomas se agravam. A atitude correta é isolar a pessoa dos elementos e aquecê-la imediatamente (basicamente: barraca, secagem, calor humano, roupas secas e saco de dormir, nessa ordem).

Desidratação e exaustão também são fatores que aumentam a chance de hipotermia, sem falar no famoso mito do alcool, que por ser um vasodilatador acelera a perda de calor do corpo, agravando os sintomas sem que a pessoa se dê conta. Alcool + frio apenas dentro do chalé!

Em algumas montanhas tropicais, como no caso da Serra da Mantiqueira, a maior intensidade de chuvas acontece entre novembro e março. No entanto, chuvas podem ocorrer o ano todo, especialmente nos locais de maior altitude. A principal diferença entre as chuvas de verão e de inverno é a intensidade (inclusive com a ocorrência de raios nas chuvas de verão – um perigo à parte!). As chuvas de inverno, por outro lado, podem durar vários dias… Então, por precaução, é importante preparar a mochila e os equipamentos sempre como se fosse encontrar chuva!

Frio e umidade a 2600m na Serra Fina (SP/MG)

Frio e umidade a 2600m na Serra Fina (SP/MG)

O frio seco dos climas temperados, até certo ponto, é possível contornar de várias formas sem tanta complicação (por exemplo mantendo-se em atividade física). O grande desafio climático para os montanhistas tropicais é mesmo a chuva, ou seja, o frio molhado.

A questão sobre entrar ou não na montanha com previsão de frente fria e chuva é bem pessoal, mas pode também estar amparada por critérios objetivos tais como: qual é o preparo da pessoa menos experiente do grupo? Quais as possibilidades de evacuação em caso de necessidade? Qual a qualidade dos equipamentos? Já foram testados? Etc.

Pessoalmente não vejo motivos pra deixar de estar na montanha por conta de chuva. Como já disse, é uma questão de preparo (prevenção/equipamentos e atitudes/procedimentos). O que mais me assusta mesmo são os raios (relâmpagos) no verão, que não dão tanto aviso e deixam pouca margem para manobras… (vou falar de raios em montanha num próximo artigo).

Por fim, citando o site norte americano hypothermia.org, “não há nenhuma desculpa para mortes por hipotermia: o conhecimento e a tecnologia para lidar com a hipotermia existem – é uma questão de prevenção.”

Num próximo post vamos falar também sobre técnicas de caminhada/trekking na chuva.

Boas aventuras!

Chuva na montanha

Vai uma água aí?

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