Fundamentos pedagógicos da caminhada na natureza

Caminhar é um exercício de vontade e a educação da vontade é o fundamento para uma personalidade bem integrada no mundo e em si mesma.

caminhada escola waldorf

O andar ereto é provavelmente o maior ato da vontade de uma pessoa durante a vida. No bebê, o desenvolvimento do andar ereto, do falar e do pensar, corresponde ao nascimento da base física de suas futuras disposições anímicas fundamentais – pensar, sentir e querer (Os sete primeiros anos da criança. E. Schoorel. Antroposófica/FEWB, 2011).

 

As futuras habilidades que se somarão a essas grandiosas conquistas da primeira infância nos fazem cada vez mais humanos, corroborando a noção de que a “humanidade” não algo dado e sim conquistado a partir de um princípio organizador individual que chamamos de “eu”. Esse “eu” é invisível ao olhar puramente material mas, por outro lado, se faz visível através das manifestações de seu pensar, seus sentimentos e suas ações no mundo.

 

O desenvolvimento da criança em direção a vida adulta exige o desenvolvimento das qualidades fundamentais da alma, a saber: a vontade (ação), o sentir (relações e fala) e o pensar (autoconsciência). Com uma percepção aguçada também podemos ver no segundo setênio (07 a 14 anos de idade) e na adolescência (14 a 21), novas conquistas desse “eu” (princípio organizador) sobre a vontade, sentimento e pensamento.

 

Por volta dos 14 anos observa-se uma delicada transição da alma infantil para a consciência adulta. O ambiente social já está fortemente configurado, assim como os fundamentos do caráter já se fazem visíveis exteriormente. O próprio jovem, no entanto, ainda não se reconhece: ele precisa do grupo para se afirmar e precisa do mundo como campo de testes para se descobrir. Colocando as suas habilidades individuais no mundo ele encontra desafios que vai gradualmente conquistado. No entanto a insegurança ainda é tremenda: “como criança eu era amado e correspondia a isso com meu amor e veneração, agora não posso mais venerar o mundo adulto cheio de contradições, etc… será que alguém me ama pelo que sou? Será que alguém enxerga a minha essência, as minhas qualidades? Será que só eu tenho esses medos?”. Nessa fase, especialmente a partir dos 14 anos, o arquétipo individual surge com muita força, refletida no corpo por mudanças hormonais e causando a dor de um verdadeiro parto, o primeiro grande parto de si mesmo (segundo estudos da biografia humana, esse processo se repete analogamente aos 21, aos 28 e aos 35).

 

Numa caminhada na natureza o jovem resgata o nascimento da vontade pelo andar ereto a partir do eu, mas agora dotado de consciência. Vivencia a si mesmo e ao mundo no silêncio de seus passos. Está no grupo mas também precisa se posicionar individualmente nos momentos de necessidade, de ajudar um colega ou de tomar uma decisão. A mochila, um peso adicional, simboliza a sua bagagem de vida até agora adquirida e as habilidades que conquistou em busca de autonomia. Enfrentar o medo, o desconhecido, os elementos e o cansaço são um verdadeiro preparo para os desafios da vida e exige um crescimento interior. É um exercício de propósito e de vontade! Cumprir uma meta, fazer a caminhada e ver-se capaz de realizar algo antes não imaginado; superar-se. As caminhadas na natureza expõem a essência de cada um e nos levam a um maior autoconhecimento. Os jovens invariavelmente terminam uma vivência dessas plenos de alegria, mesmo que molhados ou cansados, expressando a verdade do desafio vivenciado e o seu nascimento para o mundo.

 

Lorenzo Giuliano Bagini – montanhista, geógrafo e professor waldorf por 12 anos.

 

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